segunda-feira, 11 de maio de 2009

MANIFESTO


Estou cansado: destas linhas, destas letras, destas mentiras que invento e nas quais acabo por acreditar...

Estou cansado: da reforma ortográfica, da nova gramática, das tantas regras de exceção para separar palavras da vida...

(Estou cansado é de mim!)

Vou-me embora.

Embora para longe daqui...

Não quero mais sapatos, gravatas, paredes de escritório que só me deixam viver pelo vidro meio sujo das janelas.

Quero que minhas mãos criem.

Quero que meu coração crie!

Quero filhos.

Quero amor...

E um cachorro grande, desajeitado e fiel!

Mas, por ora, não dá pra ir ainda...

(Será que um dia dará?)

Sei não...

Nem quero, por ora, saber.

(Vou, apenas, me entregar à adolescente insatisfação de não ter realizado ainda meus tão antigos planos e fechar a cara, conversar por resmungos e, sempre que possível, bater a porta do quarto...)

Depois, vejo um rosto bonito ou outra delicadeza qualquer e componho mais um poema.

Deixando o círculo recomeçar...

quinta-feira, 19 de março de 2009

CAPITU


Quem é que poderia entender os mistérios daqueles olhos de mar revolto?

Sei que não eu...

Contudo, até bem pouco antes de ser colhido pela borrasca, talvez pela falsa impressão de familiaridade daqueles que crescem às voltas com dificílimas equações de física quântica, jamais me senti ameaçado por seu jeito de tormenta.

(Vivi admirado com o olho do furacão!)

Mas, num deslumbre, fui colhido pelas forças: beijou-me, sem aviso ou pedido, Capitu...

Depois, se fechou em copas: antiga e ofendida como nos textos de tantos capítulos que traziam heroínas de folhetim.

A partir de então, Capitu passou a ser-me um perigo real: se sorria, me acalmava; se ela se aproximava, palpitava; se zangava-se, atacava-me o fígado...

Mas eu era tolo e não lhe guardava a devida distância – oh, olhos de ressaca que me arrastam e afogam!

Certa feita, eu rodeando Capitu meio sem dizer porque, fui seguro pela mão e com tamanho afeto e velo que supus! Mas como nas tempestades, Capitu virou o vento e logo já não me dava mais atenção...

(E eu logo me desesperava!)

Quantas não foram as noites que fiquei a tentar entender os movimentos de Capitu: refletia, reexaminava cada palavra sua, perquiria o motivo dos atos, montava complicadíssimos modelo metrológicos: nada previa as ventanias de Capitu!

E nossa vida foi se desenrolando assim: entre um tapa e um carinho.

(E eu gozava igualmente ambas as atenções...)

E foi numa destas noites infernais, em que os raios e trovões vão ameaçar romper os portões do submundo, que me confessou sem dizer sequer uma palavra Capitu e eu me permiti afogar-me definitivamente em seus olhos revoltos.

Depois disso, nunca mais fomos vistos...

terça-feira, 17 de março de 2009

GUERRA DOS MUNDOS


Porque acordei numa correria transloucada, fui postergando o momento do meu café.

Resultado: fome!

E no átimo em que observava aquela leve pressão dolorida que se formava Na depressão do estômago, fui colhido por um imenso sentimento de comunhão e solidariedade com a humanidade: milhões de pessoas, naquele mesmo instante, viviam a mesma condição que eu.

(Só que para muitos, ela não seria passageira...)

Naquele momento eu era o menino que esmola na rua, a menina que se vende por tostões e leva a misérias para casa, o velho sozinho, faminto, doente... Eu era o cão sozinho, o cavalo machucado, o gado morto...

Eu era o que sofria!

(E não queria mais sofrer...)

Mais simples seria renunciar: abandonar o ego – o que se levantada – e ser tudo...

Só que esse é apenas metade do caminho: o abandono do ego não pode levar a paralisia, tem que nos orientar no caminho da atuação generosa!

Isso me remete a um filme que, não obstante o fracasso retumbante de público e crítica, deixou-me uma poderosa impressão: o remake “ O Dia que a Terra Parou”.

Nessa refilmagem, uma liga de avançadas raças alienígenas resolve empreender um vertiginoso plano de salvamento da terra por meio da coleta de espécimes nativos e da maciça extinção da raça humana...

Diante da extinção, mudaríamos!

Mas seria necessário tão extremado acontecimento para que mudássemos? Quero crer que não...

Desde então, e com mais vigor nesta manhã, assaltou-me o desejo de, pelo exemplo, promover alguma mudança – alguém tem que dar o primeiro passo!

Mas dar exemplos é coisa deveras dificultosa: devemos harmonizar aquilo que podemos fazer com aquilo que os outros também podem realizar. Senão, paralisia e surdez...

E, assim, aqui me encontro: coração transbordante de amor e nobres intenções e a mente à deriva em meio a medos e dúvidas...

Mas sem, pelo menos, voltar a esmorecer!

quarta-feira, 11 de março de 2009

(RE)INÍCIOS


Recomeços são, por vezes, coisas violentas.

(E as páginas em branco são conquistadas a golpes de navalha...)

Contudo, uma vez surgida a oportunidade, nos restam duas opções: continuar a rascunhar a vida ou começar a escrever o texto definitivo.

Os rascunhos são coisas caras da vida: ensinam-nos muito, nos dão a oportunidade de aprender, de ensaiar. Mas, também, são perigosos se se tornam coisas viciosas – repetidas sem métodos ou plano...

O texto definitivo já é outra história: perigoso e desafiador!

(Acabados os ensaios, chega a hora da versão final...)

Não é à toa que tantos e tantos buscam postergar ao máximo o momento de passar a limpo os rascunhos com pena e tinta indelével: e se o texto sair imperfeito, cheio de erros e borrões?

A verdade é: nada disso importa!

Chegado o momento, não adianta fugir ou resistir – a vida cuida de nos conduzir a lavratura do parecer definitivo.

Então, se é inevitável tal momento, não precisamos temê-lo. Quando ele chegar devemos sim erguer a cabeça e fitá-lo, desafiadores, os olhos.

Tudo dará certo!

Pois é assim a vida: tropeçamos, caímos, levantamos e continuamos o tango – como se a queda não passasse do mais elaborado passo de dança...

Sendo assim, chegada a ora, vou quebrar minha longa coleção de lápis de escrever.

E mandar comprarem-me uma boa e confiável caneta!

quinta-feira, 5 de março de 2009

RESPOSTAS


Quando se tornou claro que seria definitivo teu silêncio, comecei a me perguntar dos por quês...

Investiguei todas as razões possíveis: tua carta extraviou-se entre os sim e os não do sistema binários que, substituindo papel, tinta e estampilha, cuida de nos levar e trazer as coisas ditas; por motivos metafísicos, mesmo contra toda certeza e indicio, você jamais recebeu minhas perguntas; tens um coração de pedra!; ou, simplesmente, não acreditou que seria necessário responder-me...

Afinal, arrependido, conclui: fui eu que sempre fiz as perguntas erradas!

(Lamento por ter tornado tão mais difíceis sempre tuas respostas...)

Assim, num esforço herculano contra minha própria natureza, absorvo as palavras que, tendo sido do maestro Carlos Alberto Pinto Fonseca, me foram emprestadas pela dona das palavras: “O silêncio que antecede a música faz parte da própria música!”

Então, teu silêncio é, antes de ausência, música. Teu silêncio é resposta!

(Meu coração terá que se contentar com a resposta que te foi possível me franquear...)

Para ir acostumando-o, vou dizendo repetidamente como quem quer ensinar sem alarde: abraça esse silêncio, prova dele, dele se sustente.

Com o tempo, perceberei que da tua ausência farei prodígios e, nos dias lindos, não farás tanta falta assim.

Afinal, na tua generosidade descuidada, me deste todos os talentos que me são necessários para sobreviver: a música para preencher os dias, o yoga para poder renunciar, a abstinência para deixar a matéria mais leve...

A esperança que tenho é que, daqui a muitos anos, quando todas as coisas estiverem resolvidas, eu possa ser apenas grato – como já sou – e não reste, sequer, lembrança da agonia mansa que foi concluir que não seria, que seria preciso abandonar a certeza absoluta de você.

Mas de uma coisa tenho já certeza: se iniciei uma jornada mítica buscando você, encontrei foi a mim mesmo!

Por esta graça te serei sempre agradecido...

domingo, 1 de março de 2009

CRÔNICA À MOÇA


(Vale a pena lembrar umas coisas antigas - tal qual estas...)



À moça que vive na foto do convite
de formatura de minha prima.

Ao cronista diário é permitido não dizer apenas e só coisas importantes. Pode, mesmo, tratar de miudezas, das nuanças delicadas da vida...

"Fazia um calor infernal e os vizinhos discutiam, rispidamente, amenidades.

Faz tempo que essas vozes intrusas me põem a par de coisas que não tenho desejo de saber: da carestia do preço da manteiga; da toalha esquecida largada molhada sobre a cama; dos afogamentos da menina...

Se, ao menos, as vozes trouxessem notícias outras - que, enfim, os homens haviam instituído o regime da fraternidade; que o governo abolira as taxas e proscrevera os valores monetários; que a menina, sim, beijara alguém e beijaria outros se lhe apetecessem...

Mas as vozes são zangadas, tristes e eu não tenho o menor interesse nelas - de suas notícias, não quero saber.

Sinto que melhor seria saber da voz da moça de quem não sei o nome e que mora no convite de formatura de minha prima.

Viria bem a calhar se a tivesse encontrado num esbarrão pelas ruas e tivesse-lhe pedido desculpas, lhe pago um café. Desta forma, talvez, tivesse a chance de desiludir-me e partir sem mais pensar nela. Mas assim, como se deu meu encontro com ela - ela linda, feliz, sorrindo mudamente num convite de formatura -, deixou-me irreparavelmente apaixonado.

Meu coração tem essa mania de pregar-me peças - se deixa seduzir por momentos: um olhar, um sorriso, um ar de alegria. E essas coisas estão todas lá, nela. Dentre tantas e todas, foi - por motivo desconhecido e ignorado - nela em quem pousei o olhar e, sem saber nada, uma forte impressão dela instalou-se em mim.

Chamam isso de paixão - coisa dura e irrefreável. Coisa, também, injusta que nos faz querer saber, senão inventar belezas, sentidos, virtudes... Todas as coisas que não sei e que quero extrair do seu sorriso de papel. Talvez, ela não seja nada daquilo que sonho e intuo - mas mais apavorante, ainda, é que talvez seja tudo."

E eu, pobre cronista diário, a cata de magras belezas me deparei com beleza imensa e não sabida. E, se como não me bastasse isso, continuo, ao fim destas todas linhas, sem saber-lhe o nome...

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

CINZAS


Gente, vamos nos recolher!

Vestir roxo: de corpo e alma.

Deixar os arcos de violino mudos...

(Se não em sonhos, os arcos jamais falaram!)

São vantagens desse recolhimento: o corpo calado; a alma mais calma; os desejos meio que deixados de lado como as coisas já demasiadamente gastas pelo uso...

Na quaresma, ficamos tendo tempo para não querer coisas.

Os objetivos podem descansar e os quereres pausar por este mês mais pouco.

Vou, então, poder refletir.

Decidir acerca de meu propósito – meu samkalpa.

A verdade mesmo é que posso levar tempo mais que o da quaresma para finalizar a prestação de contas da última empreitada – fiz um acordo com o Universo, dei-lhe até maio, terei que esperar...

Depois disso, nova empreitada ou férias?

Novamente, a perene dúvida entre casar-me ou comprar uma bicicleta...

(Temo que a aquisição da bicicleta ganha corpo e o sonho de ter Antônia vai ficando ainda mais para o futuro!)

Mas nem tudo são tristezas nestes próximos quarenta dias: as chuvas vão amansar, o calor regredir, as tardes diminuir e morrer calmas numa noitinha morna. Quem sabe uma viagem ali pertinho com os amigos de nova data para bater papo na porta da rua esperando os vaga-lumes surgirem?

Ouro Preto é logo ali. Mariana. Diamantina fica um pouco além e ainda me é destino proibido – outro acordo firmado com o imponderável...

Mas o fato é: será valoroso esse tempo – para saber o que realmente se quer...

E o que realmente se pode ter!